segunda-feira, julho 27
A Estrela Partida por Ricardo Franca Cruz
Se não é o homem mais famoso a surgir na Terra nos últimos 50 anos, Michael Jackson é certamente um dos mais. Nenhum outro artista da cultura contemporânea se manteve em e vidência durante tantos anos, nenhum outro atingiu tão amplamente, seja com a música, a figura icônica, os atos e trejeitos, um público de variadas faixas etárias, procedências, crenças e culturas. Nenhum subiu tão alto. E nenhum afundou tão profundamente. Talvez apenas um astro com a grandeza universal de Michael Jackson conseguiria resistir a uma montanha-russa de superexposição tão intensa e agressiva como a que foi obrigado - talvez por seus próprios feitos - a suportar ao longo da carreira.A humanidade foi testemunha ocular do maior reality show de todos os tempos: acompanhamos os primeiros passos do menino-artista, louvamos seus lampejos individuais de genialidade, pagamos para ver e ter tudo o que o astro poderia nos fornecer. No topo do mundo, Michael Jackson se encontrou. E se perdeu quando depois se viu acuado pelo medo de falhar . Como Ouroboros, a serpente que come o próprio rabo e representa o e terno re torno, passou ele mesmo a se cobrar cada vez mais, até o ponto em que, vendo daqui dos lugares mais distantes da plateia, parecia impossível suportar a carga e manter a sanidade. M ais números, prêmios, recordes quebrados. Continuamos a assistir ao Show de Michael com curiosidade pura e genuína, que se tornou mórbida quando sua metamorfose física e mental era evidente demais para ser ignorada.Talvez o maior dilema para quem produz, consome e julga a arte seja a dicotomia entre o que é autêntico e o que é artificial. A arte deve refletir o homem da rua, com suas falhas e banalidades ou se espelhar em algo que não pode ser alcançado pelos meros mortais? Os engajados e puristas parecem não aceitar o lúdico e o fantasioso. Então, quando um indivíduo consegue unir esses opostos tão distantes em um só ponto, o sucesso é inevitável. N esses termos, Michael Jackson será sempre o popstar definitivo. E seu maior show, tristemente, foi o último: a morte, no "11 de setembro" do pop.O mundo sempre parou por Michael Jackson e em certos momentos, como no co-meço dos anos 80 e agora, girou em torno dele. Ele mudou a mídia e in ventou a multimídia. Não era apenas a mais importante cara da cultura pop: Michael Jackson era pura cultura pop, com sua (im)perdoável e notável megalomania, sua ânsia infantil de fazer de tudo um pouco, de ser sempre o maior de todos, um personagem mítico e irreal - ora um Noé dos nossos tempos, ora um Peter Pan de carne e osso. E, nos últimos anos, uma caricatura de si mesmo, artística e humanamente, um fragmento do inteiro que um dia chegou a ser: um negro-branco, um homem-menino, uma pessoa-aparição, um cantor sem palco, um milionário-endividado, uma criança que não vivia nas ruas mas que delas absorveu o passo de dança que o consagraria. Mesmo longe dos grandes shows ou das páginas da crítica musical, e mais próximo dos flashes dos tabloides, saber que Michael Jackson habitava esse mundo era uma maneira de confirmar que tudo continuava em seu lugar. Os sãos continuavam sãos, os loucos continuavam loucos, e nós vivendo entre estes dois extremos igualmente tediosos. Se não conseguíamos ignorar sua presença em vida, muito menos o conseguiremos depois da mor te, que resgata a humanidade que julgávamos que ele havia perdido em algum vácuo entre excentricidades pessoais, salas de cirurgia, bancos dos réus e seu zoológico pessoal. E, ao mesmo tempo, o endeusa.
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